segunda-feira, 14 de maio de 2012

A escolarização e as lutas democráticas

A escolarização básica constitui instrumento indispensável à construção da sociedade democrática, porque tem como função a socialização daquela parcela do saber sistematizado que constitui o indispensável à formação e ao exercício da cidadania. Ao entender dessa forma a função social da escola, pressupõe-se que não é nem redentora dos injustiçados e nem reprodutora das desigualdades sociais e, sim, uma das mediações pelas quais mudanças sociais em direção da democracia podem ocorrer. Uma tal concepção sobre o papel da educação estabelece como objetivo maior da política educacional a efetiva universalização de uma escola básica unitária, de caráter nacional. Só essa escola será democrática no sentido mais generoso da expressão, porque garantirá a todos, independentemente da região em que vivam, da classe a que pertençam, do credo político ou religioso que professem, uma base comum de conhecimentos e habilidades.

Guiomar Namo de Mello

Brasil Carinhoso


Dilma Rousseff anuncio no dia 13 de maio, o lançamento  do Brasil Carinhoso, ações  voltadas para a primeira infância, que faz parte do programa Brasil Sem Miséria. Segundo a presidenta, será a mais importante ação de combate à pobreza na primeira infância já lançado no Brasil.
Junto com outros programas do Brasil Sem Miséria, ele será uma parceria dos governos federal, estaduais e municipais e terá três principais eixos. O primeiro, garantir uma renda mínima de R$ 70,00 a cada membro das famílias extremamente pobres que tenham pelo menos uma criança de 0 a 6 anos. Os outros dois eixos do Brasil Carinhoso consistem no aumento de acesso das crianças pobres à creche e na ampliação da cobertura dos programas de saúde para elas. Na saúde, o programa fará um amplo controle da anemia e das deficiência de vitamina A nas crianças, além de introduzir remédio gratuito contra asma nas unidades do Aqui Tem Farmácia Popular.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Um dia ideal para os peixes-banana J. D. SALINGER


Noventa e sete agentes de publicidade de Nova York estavam hospedados no hotel e, do jeito que vinham monopolizando as linhas interurbanas, a moça do 507 teve de esperar do meio-dia até quase às duas e meia para completar sua ligação. Mas ela tratou de aproveitar bem o tempo. Leu um artigo numa revista feminina, intitulado "O Sexo é Divertido... ou um Inferno". Lavou o pente e a escova. Tirou uma mancha da saia do conjunto bege. Mudou de lugar um botão da blusa que comprara nas Lojas Saks. Arrancou dois cabelinhos que haviam acabado de aflorar numa verruga. Quando a telefonista afinal ligou para seu quarto, estava sentada no sofá ao lado da janela e quase terminado de pintar as unhas da mão esquerda.
Era uma dessas moças que não se afobam nem um pouquinho porque o telefone está tocando. Dava a impressão de que seu telefone estava chamando desde o dia em que atingira a puberdade.
Com o pincelzinho de esmalte — enquanto o telefone tocava — retocou a unha do dedo mínimo, acentuando a meia-lua. Feito isso, tampou o vidro de esmalte e, levantando-se, ficou abanando a mão esquerda para fazer o esmalte secar mais depressa. Com a outra mão apanhou de cima do sofá um cinzeiro cheio até a borda e o levou até a mesinha de cabeceira, onde estava o telefone. Sentou numa das camas-gêmeas, que a essa hora já estavam arrumadas, e — era a quinta ou sexta vez que o telefone tocava — levantou o fone do gancho.
— Alô — disse, mantendo os dedos da mão esquerda bem estendidos e afastados de seu robe de seda branca, que era tudo que estava vestindo, além dos chinelos. Os anéis estavam no banheiro.
— Sua ligação para Nova York está pronta, Sra. Glass — a telefonista anunciou.
— Obrigada — a moça respondeu, abrindo lugar para o cinzeiro na mesinha de cabeceira.
Ouviu-se uma voz de mulher.

Leia o texto completo no: 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

A caixa e o brinquedo

Rubem Alves - O Calvin, provocador das minhas idéias sobre escola, recebeu, dentro de uma caixa, um presente. Não gostou do presente e o deixou de lado. Mas ficou encantado com a caixa. Tantas coisas se podiam fazer com uma caixa! A escola foi, para mim, como o presente do Calvin. Não me entusiasmou. Mas gostei da caixa, o mundo que a cercava. Havia tantas coisa para conhecer, tantas coisas pra fazer! Explorar o mundo, andar por lugares desconhecidos, fazer meus próprios brinquedos. Foram essas atividades extra-escola que me fizeram pensar. Eu tinha uma vocação de Professor Pardal inventor. Aos seis ano, desmontei, secretamente o relógio de pulso da minha mãe. Naquele tempo os relógios de pulso eram jóias caras. Desmontei pensando que poderia montá-lo de novo. Não consegui.Minha mãe não ficou brava, o que me estimulou a desmontar para ver como as coisas eram por dentro. Mas as coisas que me fascinavam,que provocavam minha curiosidade e a vontade de desmontar não se encontravam na escola.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Carlos Drummond de Andrade


Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em
casa dizendo que vira no campo dois dragões-daindependência
cuspindo fogo e lendo fotonovelas.
A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte
ele veio contando que caíra no pátio da escola um
pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito
queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo. Desta
vez Paulo não só fi cou sem sobremesa como foi
proibido de jogar futebol durante quinze dias.
Quando o menino voltou falando que todas as
borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá
Elpídia e queriam formar um tapete voador para
transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu
levá-lo ao médico. Após o exame, o
Dr. Epaminondas abanou a cabeça:
- Não há nada a fazer, Dona Coló. Este menino é
mesmo um caso de poesia.

Carlos Drummond de Andrade

Henry Giroux


Henry Giroux, professor nos Estados Unidos da América, um dos maiores representantes da teoria crítica educacional na atualidade, enquanto educador aborda questões de importância teórica, política e pedagógica refletindo o papel da educação escolar. Ele questiona o funcionamento das escolas em questão da ordem social democrática e igualitária defendida pelos países ocidentais.
As obras de Giroux oferecem aos educadores uma linguagem crítica para ajudá-los a compreender o ensino como uma forma de política cultural. A pedagogia de Paulo Freire e o pensamento de Gramsci já haviam alertado Giroux para as várias maneiras nas quais a ideologia é estabelecida e legitimada por meio das mediações e determinações multidirecionais de cultura, classe, etnia, poder e gênero[1]. Conseqüentemente Giroux considera que os professores precisam descobrir em seus estudantes como o significado é ativamente construído através de múltiplas formações da experiência vivida que dá as suas vidas um sentido de esperança e possibilidade. "Os estudantes deveriam aprender a compreender as possibilidades transformadoras da experiência". (GIROUX:1981)

A mídia como corpo docente

As sociedades contemporâneas transferiram, pouco a pouco, os cuidados com as crianças das famílias para as escolas, a formação e informação cognitiva, moral, sexual, religiosa, cívica etc., passou a ser entendida como uma tarefa essencial do espaço escolar, em substituição a uma convivência familiar cada vez mais restrita em qualidade e quantidade.
Por isso, quando nos aproximamos do início do ano letivo, não são só as aulas que chegam; na prática, é a entrada ou reentrada da nossa infância e adolescência no território que se supõe seja o mais adequado para elas estarem ("em vez de ficarem nas ruas ou shoppings"...). Há, assim, uma crescente sacralização do espaço escolar como sendo um lugar de proteção/formação/salvação e, por consequência, uma maior responsabilização das educadoras e dos educadores na guarida das gerações vindouras; no entanto, essa responsabilidade beira a culpabilização, como se a escola e os profissionais nela presentes tivessem, isoladamente, o exclusivo dever de dar conta de toda a complexidade presente na educação da juventude. 
É preciso, porém, observar um fenômeno que explodiu nos últimos 20 anos: uma criança dos centros urbanos, a partir dos dois anos de idade, assiste, em média, três horas diárias de televisão, o que resulta em mais de 1000 horas como espectadora durante um ano (sem contar as outras mídias eletrônicas como rádio, cinema e computador); ao chegar aos sete anos, idade escolar obrigatória, ela já assistiu a mais de 5000 horas de programação televisiva. Vamos enfatizar: uma criança, no dia em que entrar no Ensino Fundamental, pisará na escola já tendo sido espectadora de mais de cinco mil horas de televisão!
Quando pensamos no campo da formação ética e de cidadania, os problemas na educação brasileira não são, evidentemente, um ônus a recair prioritariamente sobre o corpo docente escolar; há um outro corpo docente não-escolar com uma estupenda e eficaz ascendência sobre as crianças e jovens.
Cinco mil horas! Imagine-se a responsabilidade daqueles e daquelas que produzem as programações e as publicidades! Pense-se no impacto formativo sobre os valores, hábitos, normas, regras e saberes que os profissionais dessa área de mídia têm sobre os infantes e sobre a chamada "primeira infância", época na qual uma parte do carácter permanecente da pessoa se estrutura.
É claro que isso obriga também aos que lidam com educação escolar rever os objetivos e a metodologia de trabalho; afinal, crianças pequenas não chegam mais à escola sem alguma base de conhecimento e informação científica e social, dado que têm outras fontes de cultura no cotidiano. Entretanto, essa erotização precoce, consumismo desvairado, competição e não cooperação, individualismo etc., podem estar sendo " ensinados" sem que os na mídia envolvidos deem conta disso.
Vale, pois, lembrar o que, em 1980,nos contou Adélia Prado em Cacos para um vitral ( com seu estilo simuladamente ingênuo e deveras percuciente), descrevendo uma cena familiar noturna em uma sala em pequenina cidade das Minas gerais, quando fictícios personagens de novela borrifavam sues efeitos concretos na vida real:" Anselmo Vargas beijava Margot na novel das sete. O menininho de Matilde pediu: mãe, muda o programa. Meu pintinho fica ruim"...

Mario Sergio Cortella
Livro: Não nascemos protos: provocações filosóficas

Não nascemos prontos!



O sempre surpreendente Guimarães Rosa dizia: " o animal satisfeito dorme". Por trás dessa aparente obviedade está um dos mais fundos alertas contra o risco de cairmos na monotonia existencial, na redundância afetiva e na indigência intelectual. O que o escritor tão bem percebeu é que a condição humana perde substância e energia vital toda vez que se sente plenamente confortável com a maneira como as coisas já estão, rendendo-se à sedução do repouso e imobilizando-se na acomodação.
A advertência é preciosa: não esquecer que a satisfação conclui, encerra, termina; a satisfação não deixa margem para a continuidade, para o prosseguimento, para a persistência, para o desdobramento. A satisfação acalma, limita amortece.
Por isso, quando alguém diz " fiquei muito satisfeito com você" ou " estou muito satisfeito com teu trabalho", é assustador. O que se quer dizer com isso? Que nada mais de mim se deseja? Que o ponto atual é meu limite e, portanto, minha possibilidade? Que de mim nada mais além se pode esperar? Que está bom como está? Assim seria apavorante; passaria a ideia de que desse jeito já basta. Ora, o agradável é quando alguém diz: " teu trabalho é bom, fiquei muito insatisfeito e, portanto quero mais, quero continuar, quero conhecer outra coisas".

Mario Sergio Cortella